sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Não caia na rede

Muito provavelmente você já viu essa imagem Internet a fora:
Imagem: Pinterest
Provavelmente também tenha concordado com ela e pensado em reduzir o uso de redes sociais e dar folgas mais longas para o celular. Talvez não.
Nos últimos tempos a gente tem visto vários colegas e amigos simplesmente fecharem seus perfis e deixarem as telas de lado. Um pouco mais além, marcas amigas estão lentamente reduzindo seus canais e concentrando sua comunicação em apenas um deles. E aí vem a pergunta: como pequenas marcas podem sobreviver num universo virtual saturado de informação?

Até chegar em alguma resposta a gente senta e pensa em uma porção de coisas. A primeira é que redes sociais são um fenômeno muito interessante; como tudo na vida, existe a possibilidade de usar essas ferramentas de forma positiva ou negativa. 
Então, uma lista de coisas que tem nos incomodado bastante começa a surgir:

*Redes sociais não se sustentam por si - todas elas dependem de uma coisa para existir e crescer: gente que coloque coisas nelas. Ou, criadores de conteúdo, essa palavrinha que vale milhões. Nenhuma rede social produz conteúdo, elas apenas propagam o que seus usuários resolvem botar no mundo. É a velha história: "ah, eu achei no Google". Ninguém acha nada por lá porque o próprio Google tenha colocado, mas porque alguém, em algum lugar do mundo fez um produto, montou uma combinação de roupas, cozinhou algo, tirou uma foto e decidiu compartilhar na rede. 

*Redes sociais cobram para mostrar seu conteúdo aos seus seguidores - inicialmente, todas elas são gratuitas para o usuário comum. Para marcas, sejam grandes ou pequenas, há um custo para que aquilo que se quer divulgar chegue a quem pode se interessar. Justo para quem ainda não conhece uma marca, injusto para quem já tem interesse por ela e que não recebe informações a respeito na sua linha do tempo porque a tal rede decide o que é e o que não é relevante (outra palavra da moda) para determinado usuário.

*Redes sociais são rápidas - quem está rolando a tela não tem tempo para ler grandes textos; tudo precisa ser dinâmico, visual, objetivo.

Nesse contexto, quem acaba ditando as regras do que vai ou não chegar até o outro lado são as próprias redes. Se uma marca não estiver disposta a fazer um certo número de postagens no dia (o que só aumenta a quantidade de informações a ser filtrada), em certos horários, com certos assuntos que estão "bombando" e ainda desembolsar algum valor, as chances de cair na obscuridade são enormes. E os pequenos produtores começam a perceber que a aliada Internet tem também uma faceta cruel e implacável:

*"Crie conteúdo", disseram eles - fazer um produto original, de boa qualidade, com acabamento primoroso, diferente, mesmo, que faça as pessoas se apaixonarem, com todo o trabalho que isso envolve (e que a gente já falou bastante em alguns posts) e postar fotos dele nas redes não é suficiente. É preciso compartilhar seus processos criativos, seu ateliê, o que você come, aonde vai, com quem vai, seus animais de estimação, sua família, fazer ao menos três stories por dia e uma live semanal. Mesmo que você seja uma pessoa introspectiva, que não goste de fazer vídeos, que prefira manter sua vida pessoal privada. Sim, marcas pequenas costumam ser um híbrido pessoa física/jurídica, então muito do criador acaba sendo parte da coisa criada e é natural que seja assim, mas daí a precisar dissecar a rotina para que o público se interesse pelo seu produto empurra os limites pra longe. Veja bem, quem fica confortável fazendo todas essas coisas, ok. O que não é ok é essa corrida maluca de ter que fazer cada vez mais, para aparecer mais. E alguém sempre vai postar mais, puxando a meta cada vez mais pra cima. É como se ser artesão não fosse trabalho suficiente, é imprescindível ser influenciador digital, também.

*"Seja relevante", disseram eles - o mote da relevância é "pergunte ao seu público o que ele quer ver/saber". Então, não bastando o pacote básico de informações que você PRECISA compartilhar diariamente, é necessário fazer enquetes/pesquisas com quem te segue pra saber "o que mais" eles querem ver na tela. E aí mora um perigo medonho de simplesmente não ter pra mostrar aquilo que o público quer ver porque... você não é/faz aquilo. Veja bem; uma marca tem seus valores, sua identidade. Os produtos dela são de um jeito determinado por causa dessas bases. Cada pessoa que responde à uma enquete sobre uma marca vai ter ideias diferentes sobre ela, sobre quem faz, sobre o que lhe interessa, mil opiniões sobre o que poderia ser mudado.  Tente agradar todo mundo, falhe miseravelmente e perca um enorme e precioso tempo no processo. 

*"Seja consistente", disseram eles - faça tudo isso aí em cima, todos os dias e nos horários com maior alcance, não importa o que aconteça. Aham.

*"Esteja presente", disseram eles - quando postar, esteja pronto para interagir com o público o mais rápido possível. Não deixe as pessoas esperando, elas vão desistir de você. Aham 2.

Depois de cumpridas todas as regras para obter o máximo de aproveitamento nas redes sociais, esteja preparado para receber comentários raivosos, opiniões que você pediu e não pediu ditas de forma rude, impropérios de quem sequer leu ou entendeu o que foi escrito. Isso em pelo menos três plataformas diferentes. 

Isto posto, a canseira é grande. A vida é cheia de coisas que a gente precisa fazer gostando ou não, mas acrescentar todo um protocolo virtual na rotina a fim de crescer, construir marca, se estabelecer no mercado em detrimento daquilo que a gente é, numa busca doida de agradar sabe-se lá quem, é surreal. Perceber como nos acostumamos com esse ritmo frenético, com a superficialidade, como nos distraímos com a vida alheia, ainda que ela seja tão comum como a nossa, não lemos, não notamos detalhes. É só uma grande rede que nos prende mas não nos torna mais sociáveis.
Um exemplo de como às vezes somos arrastados pra esse modus operandi sem notar é a hashtag que criamos no Instagram às quartas-feiras. Mesmo tendo aqui a Sexta-Feira Artesanal, os Achados Artesanais, os Bazares e o Por Onde Andamos, que são as tags onde compartilhamos marcas feitas à mão, na tentativa de usar o nosso espaço para divulgar trabalhos criativos, a #4dequarta era um modo mais conciso e rápido de espalhar essas marcas, pra mais gente. E o que experimentamos foi a obrigação de todas as quartas precisar postar (e ficar com culpa quando não era possível), não poder discorrer a respeito com detalhes (sim, a gente ama um textão), falar mais dos outros do que da gente (nosso perfil foi perdendo nossa personalidade) e até sermos acusadas de usar foto alheia indevidamente 😒. Hashtag cancelada.
Outra situação é procurar um restaurante, digamos, no Facebook e encontrar uma página desatualizada. O primeiro pensamento é: "ih, acho que fechou". Mas não! A gente é que entrou nessa paranoia de "se tá na Internet existe/é verdade; se não tá...". O restaurante vai muito bem, obrigado.
Isso significa que vamos sair das redes sociais? Não, mas vamos fazer do nosso jeito, custe o que custar (talvez muito). O ritmo vai ser devagar; se as pessoas não leem textões em redes sociais, a gente vai continuar escrevendo eles aqui no blog, pra quem ainda generosamente nos prestigia lendo essas linhas. 
As pessoas não leem mais blogs? Paciência. Vamos estar aqui, de todo jeito. Sobreviveremos? Faremos o possível.





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