sexta-feira, 20 de abril de 2018

Artesanato Barato Existe?

Bordado: Michelle Holmes
Já de cara a gente responde: artesanato barato existe.
Mas a pergunta não é tão simples assim; o que a gente quer mesmo saber é se existe artesanato, no sentido real, 
"pra valer" da palavra, que seja barato.
Pra isso, é necessário entender algumas coisas que nem sempre estão tão perceptíveis, escancaradas, óbvias. 
Ou, se estão, vem sendo ignoradas de propósito por uma parcela assustadoramente grande das pessoas.
Em primeiro lugar, o que é artesanato? 
O dicionário define como "arte e técnica do trabalho manual não industrializado, realizado por artesão, e que escapa à produção em série; tem finalidade a um tempo utilitária e artística."
Antes da Revolução Industrial, praticamente tudo o que se necessitava para o dia a dia era efetivamente artesanal: roupas, móveis, utensílios domésticos, ferramentas e até máquinas. Tudo feito em pequenas oficinas; cada comunidade/vila/povoado tinha seu próprio sapateiro, ferreiro, alfaiate etc.
Então a Indústria chegou abocanhando o que quer que fosse possível, provando ser capaz de produzir muito mais rapidamente e em quantidades exorbitantes qualquer coisa que um reles ser humano levaria dias para terminar. Nascia aquela palavrinha que a gente tem horror: massificação. Tudo igual, pra todo mundo. Preços mínimos, pra comprarmos mais e mais e mais um pouco.
A partir daí, tudo o que vem de fábrica é sinônimo de qualidade e tudo que é feito por alguém é menos, mal feito, qualquer coisa. Portanto, paga-se qualquer preço por peças feitas por máquinas e pechincha-se ao máximo o artesanal. Felizmente, de alguns anos pra cá, muitas pessoas tem questionado esse modo de pensar e reencontrado o valor do trabalho manual e deixado de lado aquela rejeição inicial ao ouvir alguém dizer que trabalha com artesanato. E, felizmente, também, o mundo artesanal passou por mudanças: muito conhecimento disponível, técnicas aprimoradas, materiais melhores, ferramentas melhores; contribuições fundamentais para que os artesãos saíssem do amadorismo e se tornassem realmente profissionais no que fazem.
Isso tudo de texto pra tentar colocar o industrial e o artesanal numa balança e tocar nesse ponto delicado e dolorido (mas que não precisa ser) chamado dinheiro. Ou preço. Ou valor. Coisas que andam misturadas mas não deveriam.
Quando você compra uma peça feita à mão, talvez pense "mas é só tecido", "mas é só argila", "mas é só...". Não. Definitivamente NÃO. Se fosse, bastava, por exemplo, a gente te entregar um novelo de linha que seria a mesma coisa que um par de sapatinhos, certo? Claro que não está certo. Nós SABEMOS transformar linha em um par de sapatinhos, talvez você não saiba. E é por isso que vendemos e que você compra. Portanto, basear a sua noção de preço justo apenas sobre o valor do material é absurdo (se você já viu em programas de TV aquela velha fórmula de multiplicar o valor do material por três, faça um favor ao mundo: esqueça isso. Esse cálculo é um desserviço sem tamanho e demonstra apenas que a pessoa não sabe do que está falando). O preço de um produto artesanal também se baseia no conhecimento empregado pelo artesão para produzir aquilo. Tal como um médico ou advogado, que estuda anos para depois poder cobrar pelo saber fazer. Não é porque não existe faculdade de artesanato que não é necessário estudo, pesquisa e busca por conhecimento para ser artesão. 
Isto posto, vamos ao fator tempo. A capacidade produtiva de um artesão não pode ser comparada a de uma máquina, ou de vários setores de uma fábrica onde trabalham várias pessoas. Muitas espécies de artesanato exigem uma longa sequência de ações, no decorrer de dias, para que resultem em apenas uma peça. Ainda que esse ciclo seja bem variável, via de regra, um artesanato bem feito não é "cuspido" em trinta segundos. Assim, a ideia de que "se eu pedir dois sai mais barato?" não funciona para o feito à mão. Na indústria, muitas vezes não há diferença entre uma máquina fazer dez ou mil peças. Para um artesão, fazer duas peças do mesmo tipo leva o dobro do tempo do que fazer apenas uma. E, sim, o segundo elemento que compõe o nosso preço, é o tempo que levamos para transformar matéria-prima em produto acabado. 
Aí, você dirá: "mas minha mãe/meu pai, minha sogra/meu sogro, minha tia/meu tio, faz isso tão rapidinho!" 
Bom, se quem você conhece faz alguma técnica artesanal para presentear a família e os amigos e faz com rapidez, excelente; afinal, não precisam fazer essa atividade com regularidade, cumprir prazos, responder emails e mensagens, fotografar com qualidade, administrar lojas virtuais e redes sociais, ir frequentemente ao correio, participar de feiras (geralmente aos fins de semana). Todo esse tempo também precisa ser contabilizado no preço do artesanato, não apenas o tempo de produção efetiva de uma peça.
"Ah, mas eu conheço uma pessoa que só trabalha com isso e cobra metade do preço!" Pois sim, compre dela, mas, por favor, entenda que neste caso, várias coisas podem estar acontecendo, como por exemplo: a pessoa perdeu o emprego e começou a fazer artesanato como fonte de renda - geralmente, pessoas assim ou faziam uma técnica por hobby e viram a oportunidade de gerar renda através disso ou resolveram fazer um curso em locais que oferecem oficinas e começaram vender seus produtos a partir daí. Isso é bom, é claro, mas se não há um bom planejamento para se conduzir o negócio e o objetivo principal é lucro, o caminho mais fácil é "vender baratinho pras pessoas conhecerem". 
Esse tipo de empreendimento, iniciado por necessidade e sem muita atenção aos reais custos para se manter um negócio não é sustentável e gera uma série de problemas para quem o faz: ali em cima a gente disse que a capacidade produtiva de um artesão é pequena. É. Uma pessoa que vende suas peças por preço reduzido e recebe um mundo de encomendas está dando tiro no pé: vai precisar trabalhar muito mais que o colega artesão que tem o preço justo para receber o mesmo tanto de dinheiro. Ou seja, o que aparentemente parece vantagem, vira cansaço, noites mal dormidas, falta de tempo com a família etc. Em breve, isso acaba por se tornar um fardo e as entregas começam a atrasar, falta espaço na agenda para fazer boas fotos, responder clientes com gentileza, aperfeiçoamento do fazer.   
Comparar preço de venda de quem age assim com preço de venda de quem se esforça em entregar qualidade dentro dos limites humanos de trabalho é fomentar trabalho escravo. Talvez a própria pessoa que vende não veja dessa forma, mas você, que está lendo esse texto, tem a possibilidade de entender um pouco melhor que esse tipo de coisa existe e que colaborar com isso não é apoiar o artesanato. Variações de preço sempre vão ocorrer, mas cobrir oferta da concorrência é prática de mercado de grandes corporações. Não faça leilão com o trabalho alheio.
Outro ponto é comparar o valor percebido de uma peça. Se pra você um pano de prato é apenas um pano de prato e pode ser brinde da companhia de gás, ok. Existe gente que vai preferir um pano de prato bordado em ponto cruz e, portanto, existem pessoas que vendem panos de prato lindamente bordados em ponto de cruz. Não é possível que os dois tenham o mesmo VALOR, quanto menos o mesmo PREÇO. Pode não ter valor para você, portanto, você decide que não vai pagar por aquilo. Mas outra pessoa enxerga valor naquilo e decide pagar o preço. Por favor, não vá barganhar com quem faz o pano de prato, para tentar ter uma peça incrível na cozinha pelo menor preço possível. Se você tem o dinheiro, compre. Se não tem ou não quer usá-lo para isso, não compre. Mas NÃO barganhe.
Então, voltemos à primeira linha do post. Artesanato barato existe. 
Existe porque existem "artesãos" que não valorizam o próprio tempo, seja ele integral ou pós-expediente regular, não aperfeiçoam suas técnicas para entregar um produto cada vez melhor, se importam apenas com o lucro (que via de regra não é muito, já que não contabilizam bem seus custos e muitas vezes pagam para trabalhar), que fazem um trabalho excelente tecnicamente mas tem "vergonha de cobrar" e assim abrem precedente para a guerra de preços. 
Artesanato de verdade não é commodity; é comércio justo e compras conscientes. Ninguém precisa lotar a casa e a vida de artesanato e pra isso ficar negociando preço, sempre o máximo pelo mínimo. Você compra um hoje, outro mês que vem, substitui aquela peça da loja de departamentos internacional por um item feito à mão, troca o pão de pacote do supermercado pelo de fermentação natural da padaria artesanal do bairro vizinho, devagar, uma coisa de cada vez. Artesanato de verdade é menos consumismo desenfreado e mais compras com significado, entendendo que o seu dinheiro pode sim fazer diferença onde você está. O que a gente luta contra é a ideia generalizada de que artesanato é coisa meia boca e que qualquer moedinha paga. Lógico que existe muita coisa mal feita por aí, mas a gente conta com o seu bom senso e busca divulgar o máximo de trabalho artesanal de gabarito por aqui, pra lembrar que generalização nunca é boa coisa.
Não é possível encontrar uma foto sensacional no Instagram, ir para o link de uma marca e encontrar imagens bem arrumadas, mostrando peças lindas, ter um atendimento cordial ao enviar uma mensagem, receber sua encomenda bem embalada em casa, abrir e encontrar exatamente o que viu, real em suas mãos, nas cores e tamanhos pedidos, feito especialmente para você, com acabamento primoroso e esperar pagar preço de banana. 
Afinal, nem banana, hoje em dia, tem mais preço de banana. Que dirá artesanato.


2 comentários:

  1. O textão mais sensacional e completo sobre o tema. Obrigada. Peço licença para compartilhar com os créditos de autoria.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Denise!
      Desculpe a demora na resposta, tivemos problemas para acessar o blog esses dias.
      Nós é que agradecemos sua atenção em ler nosso texto; tem toda a licença para compartilhar, é claro.
      Seja sempre bem vinda :)
      Abraço!

      Excluir