sábado, 17 de março de 2018

Como não apoiar um pequeno negócio - 10 atitudes destrutivas

Um dos posts mais lidos aqui no blog é o Como apoiar um pequeno negócio - 15 dicas, de fevereiro de 2017. 
Hoje, a gente resolveu fazer o caminho inverso e listar 10 atitudes que minam o trabalho criativo, desestimulam o artesão e apenas contribuem para um mundo mais massificado e grosseiro. De palavras pequenas, às vezes não intencionais, mas que podem ser repensadas, a hábitos nocivos que destroem sonhos e deixam o nosso entorno mais raso, fatalista e sem esperança, são situações pelas quais passamos ou vimos algum amigo artesão passar e que são aquele balde de água fria no nosso ânimo.
Imagem: Pinterest
Mas a gente levanta, se seca e chuta o balde. Brincadeira. A gente senta e escreve, explica e tenta esclarecer que com um pouco de boa vontade e gentileza, dá pra melhorar. Ah, se dá.

Antes de tudo, é bom ter em mente que pequenos negócios geralmente são feitos por uma pessoa, duas ou três, no máximo. Pelo menos é desse "pequeno" que vamos tratar aqui. E esses criativos, via de regra, utilizam a Internet para divulgar e comercializar seus produtos e serviços e é exatamente nesse ambiente virtual que começam os disparates:


*Não lerO artesão tem o cuidado de colocar as informações gerais (ou anexar o link onde elas estão - normalmente a própria loja virtual) nas legendas das fotos ou no enunciado das postagens. E os comentários/mensagens, em 90% dos casos, são perguntas sobre o que já foi dito. Uma atençãozinha a mais e o tempo que foi gasto disponibilizando essas informações não precisa ser usado de novo e de novo e de novo...

*Comentar/pedir informações sem o mínimo de educação - A Internet é das invenções mais incríveis, mas, infelizmente, descortinou alguns dos aspectos comportamentais mais obscuros do ser humano; é muito comum passear pela linha do tempo de marcas amigas e encontrar o mesmo comentário em duas variações: "valor" / "valooorrr?????". Pessoas queridas, não façam isso. É feio. Muito feio. Não esqueçam que, por trás daquela foto, administrando aquela rede social, tem uma pessoa de carne e osso e sentimentos, que, como você, espera ser tratada com educação e respeito. Não culpe a pressa pela sua falta de gentileza. Um "por favor, quanto custa essa peça? Obrigada/o!" não leva mais de 10 segundos para ser digitado e, olha, quanta diferença!
Ninguém entra numa loja, pega um sapato e esfrega na cara do vendedor gritando "valoooorrr???". A gente diz bom dia/ boa tarde/ boa noite e então pergunta o que precisa. Não é porque você está em frente a uma tela que está dispensado de usar boas maneiras.

*Reclamar da demora nas respostas - De novo: quem se dispõe a "eupreender" geralmente faz tudo sozinho, e, às vezes, esse tudo não é bem compreendido pelos outros, por você, talvez. A gente precisa pensar no produto, planejar, calcular material e tempo de produção, testar, errar (às vezes errar muito), consertar, finalizar, precificar, tirar foto, tratar as fotos, divulgar, administrar os pedidos, produzir as encomendas, embalar, levar ao correio, acompanhar o trajeto, cuidar das redes sociais e ter uma vida normal com a família e os amigos. Não tem equipe, tem "euquipe". Então, se você resolveu mandar mensagem às duas da manhã do domingo, por favor, tenha um pouco de paciência. Ela será lida e respondida nos horários determinados para isso. Afinal, não é possível produzir e estar online ao mesmo tempo.

*Sumir - Sim, sumir. Normalmente isso acontece após a pessoa solicitar o preço ou o orçamento de um produto. Todo mundo é livre para perguntar o que quiser, e, inclusive, determinar que não pode/quer pagar aquilo. Normal.
O que não é normal é não agradecer o tempo que a gente precisa usar para fazer um orçamento, como se bastasse piscar e pronto, orçado. Um "obrigado/a" resolve a questão, não é necessário dar explicações caso você decida não comprar o produto, mas encerre a conversa.

*Marcar pessoas em postagens - Duas situações, aqui: se você quer mostrar para alguém uma peça legal porque sabe que a pessoa pode gostar daquilo, ótimo, continue. 
Agora, se você vai marcar sua/seu amiga/o artesã/o pra "dar ideias", "inspirar", "copiar" ou a sua mãe/tia/vó com um "faz pra mim", pare um minuto e pense. Você faria isso cara a cara com quem fez o produto?
Se sua resposta for não, não faça isso no mundo virtual também.
Se sua resposta for sim, você precisa rever seu bom senso. 
Isso é invadir o espaço de quem está trabalhando para divulgar a própria marca e tirar o foco de quem está ali para apreciar e apoiar. Polui e  diminui o trabalho alheio a um mero objeto de cópia. 

*Compartilhar fotos sem crédito - Viu uma peça bonita, um objeto de decoração peculiar, um acessório cheio de bossa? Quer mostrar pros amigos, colocar no painel do Pinterest? Credite. Diga de quem é a foto. As fotos não "surgem" na web, elas são colocadas lá por alguém que as fez; se te encantou, o mínimo que você pode fazer é compartilhar o responsável por isso.

*Pedir desconto - Primeiro: o que é desconto? Para um produto, é a redução de uma porcentagem do lucro obtido com a sua venda. Por que grandes empresas conseguem fazer grandes promoções? Porque ou tem uma grande margem de lucro ou podem vender quantidades maiores de produtos.
Um artesão não pode contar com essas prerrogativas; um lucro alto encarece demais o produto e uma pessoa sozinha ou uma pequena equipe não tem uma capacidade produtiva que compense na relação quantidade de vendas-lucro menor.
Portanto, tenha em mente que um pequeno produtor não está tentando "enfiar a faca" em você quando diz seu preço. Volte ao item 3 desta lista e dê outra olhada na (resumida) quantidade de tarefas desenvolvidas todos os dias para que essa peça fique pronta. É o tempo da vida de alguém que está sendo utilizado para que um produto único e de qualidade chegue às suas mãos; não precifique a vida alheia. Você gostaria que seu chefe dissesse que você não vale o trabalho que executa?

*Transferir a responsabilidade do envio - Em se tratando de compras online neste nosso país, você já deve saber que temos apenas uma empresa com cobertura em todo o território nacional que podemos utilizar. E que essa empresa anda tendo problemas há muito tempo com altas taxas, atrasos nas entregas, extravio de encomendas, mau atendimento e muitas, mas muitas reclamações. Então tenha, por favor, um pouco de empatia pela marca de quem você comprou aquele produto incrível, mas que ainda não chegou. Não vá mandar mil mensagens "cadê meu produto?" por dia ou gritar nas redes sociais antes de verificar o motivo do atraso. Muitas vezes o prazo de postagem é cumprido, mas a empresa de logística não está levando o prazo de entrega muito a sério. A maioria dos pequenos negócios tem sofrido com essa baixa qualidade de serviço e costuma arcar com o prejuízo e reembolsar o cliente.

*Não valorizar quem ensina - Uma das perguntas que mais ouvimos em feiras é: vocês dão aula? E a resposta é sempre a mesma: não. Não, porque dar aula não é qualquer coisa.
Aula, workshop, curso, oficina, DÁ UM BAITA TRABALHO.
Tem artesãos que encaram a dupla jornada de produzir peças para comercializar E dar aulas. Pra esses, a nossa admiração. A gente assume logo a nossa incapacidade pra tanto e que o que a gente gosta MESMO é fazer e vender. 
E tem ainda os criativos que fizeram do ensino a sua atividade principal. Sim, eles vivem de ajudar os outros a aprender a costurar, bordar, crochetar, tricotar, pintar, esculpir etc. Eles são a própria marca, o pequeno negócio personificado.
Mas por que a gente tá falando isso? Porque tem pessoas que não apenas consomem artesanato pronto, finalizado, mas também gostam de por a mão na massa. Escolhem uma ou várias técnicas e fazem aulas presenciais ou virtuais e compram apostilas. Aí mora um perigo medonho: a não valorização de quem cria esse material. O risco enorme de olhar para uma apostila e achar que, como as fotos da Internet, ela apareceu ali do nada, pronta para ser adquirida. Pior, começam a surgir umas deformações de comportamento, aquele jeitinho brasileiro ruim, que deturpa frases como "feliz aquele que transfere o que sabe" e se manifesta, por exemplo, numa compra de apostila em grupo: todo mundo dá um percentual do valor, junta, um compra e todos usam.
Gente que compra a apostila original e... revende (afinal, tem quem compre). Como investir no próprio conhecimento é algo muito doloroso pra alguns, ainda aparecem as pessoas que entram nas redes sociais das/os professoras/es comentando simplesmente: "PAP", "receita", "molde" e por aí vai, como se fosse obrigação da pessoa que estudou, criou, modelou, fotografou, escreveu, diagramou, revisou mil vezes para deixar as instruções o mais esclarecidas possível, colocar esse material no mundo e não receber nenhum retorno financeiro por isso. Você não quer trabalhar de graça; porque o trabalho dos outros precisa ser gratuito? Achou caro? Volte duas casas e releia o item Pedir desconto. Ou se programe e compre futuramente. Não alimente a pirataria nem o mau caratismo de gente oportunista que não cria nada mas paga de "bonzinho" distribuindo o esforço alheio por valor irrisório. Quem cria precisa de apoio e suporte (financeiro, inclusive) para continuar produzindo novos conteúdos bacanas sem passar fome nem deixar as contas atrasadas.

*Comentar "nossa, mas seu trabalho é uma terapia" - Não. Terapia (e fisioterapia, também, em alguns casos) é o que a gente precisa fazer para continuar fazendo o que faz, porque empreender não é moleza. Quem trabalha com as mãos escolheu deixar de fazer algo como distração/hobby/descanso mental para transformar isso em ganha-pão, em atividade real-oficial, em responsabilidade em atender bem aos clientes, em prazos a cumprir, impostos a pagar e tudo que envolve um pequeno negócio. É afetivo, tem carinho, tem cuidado com os detalhes, vai um pedaço da gente junto, a gente se despede da peça como se fosse filho? Sim, mas é trabalho. Não imagine que a gente deita na rede, com suco gelado e brisa fresca e vai trabalhando ali, do jeito que der.
Tem que ter disciplina, tem que driblar a procrastinação, tem que ser chefe rigoroso de si mesmo e, bom, isso não se parece com terapia, não é?

E está aí a lista dos 10 não exaustivos itens que a gente pode repensar e mudar; e, veja, são 5 itens a menos que os do post citado no início, o que pode indicar que a gente tem menos coisas pra melhorar e mais coisas pra continuar fazendo e que podem, pouco a pouco, contribuir para uma convivência um pouco mais harmônica com os amiguinhos. Tem mais sugestões? Conta pra gente aí nos comentários. E já sabe, né? Joga no mundo esse post, que é pra mais gente fazer diferença na vida dos outros. Mas não esqueça dos créditos.





2 comentários:

  1. Ahazou, Gil!!
    Obrigada por esse post maravilhoso!
    É pra compartilhar no perfil pessoal, profissional, anúncio de tv, programa da Namaria, fazer camiseta, meme...

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    Respostas
    1. Hahahahaha! Sabe aquela vergonhinha da entrevista? Peguei pra mim, agora :D
      Você sempre essa gentileza <3

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