quarta-feira, 11 de março de 2015

Você não é todo mundo



Entro num grande e moderno shopping center. Luzes, ambientes bem decorados, cortinas de veludo, papel de parede, ar condicionado, um aroma agradável.
Roupas, sapatos, eletrônicos recentemente lançados. Tudo novo, reluzente, atraente e... a sensação de já ter visto isso antes.
Praça de alimentação, opções variadas. Variadas?
Na última visita a um desses templos do consumo, completo um pensamento que vinha borbulhando em minha mente há tempos: por que todas as cidades, em todos os lugares, precisam ter as mesmas opções de compras, serviços e alimentação?
Por que em qualquer cidade que se visite, é sempre possível encontrar um lugar onde estão reunidas todas as lojas que vendem as mesmas coisas?
Peças de decoração que estão nas prateleiras de uma rede de lojas do outro lado do mundo estão logo à frente dos meus olhos. Penso: várias casas ao redor do planeta tem uma saboneteira dessas no lavabo.
Por que as particularidades de cada povo, cultura, região estão sendo anuladas e desprezadas em nome de uma acessibilidade a produtos de uma determinada marca ou disseminados por uma moda?
Quando foi que passamos a essa uniformidade? Essa falsa impressão de variedade, quando tudo é incrivelmente semelhante?
Porque grandes centros de alta costura, design, gastronomia dizem que seus frutos permitirão ao cidadão comum ter o status de celebridades? Seremos mais descolados, influentes, admirados por usar esta ou aquela peça? Ainda que outras milhares de pessoas ao redor do mundo usem... exatamente a mesma coisa? Famosos trombam em eventos de gala com os mesmos trajes "exclusivos", alimentando uma mídia que promove competições entre qual atriz parece melhor com determinado vestido.
E, claro, isso não se restringe a grandes marcas, já que em qualquer loja de rua é possível ver produtos saídos da mesma forma.
A diversidade criativa se compromete quando poucas empresas se dedicam a monopolizar a oferta de produtos. Mentes brilhantes ou são tolhidas debaixo da ditadura do "que vende mais" ou são simplesmente ignoradas dentro da cadeia produtiva e comercial. O apelo ao senso comum molda a forma de consumo, excluindo o diferente e enfiando goela abaixo do público geral a necessidade de ter aquele determinado objeto; nesse contexto o feito à mão é válido desde que controlado pelas grande indústrias, tenha um custo reduzido e se encaixe num padrão predeterminado. Aqui é possível acrescentar que, não bastasse a exploração geral de trabalho escravo utilizada por gigantes comerciais em produção regular (operação de máquinas), temos o agravante da depreciação da mão de obra artesanal.
Além disso, tudo o que se apresenta como alternativa a esse padrão recebe uma velada ou até mesmo explícita rejeição, sendo considerado como de pouco valor, de qualidade questionável e quase sempre associado à baixas condições econômicas e sociais.
No mundo da pressa, do mais barato, da normalidade, dos padrões, das facilidades e da preguiça, estimular as pessoas a encontrarem seus gostos e preferências e demonstrarem isso em suas compras cotidianas é temerário. Num contexto em que preferimos sentar e reclamar da política enquanto alimentamos a indústria do consumismo desenfreado (porque é muito trabalhoso pensar se o que adquirimos é proveniente de relações de trabalho justas e de condições sustentáveis), chamar à reflexão é quase uma ofensa. "Afinal, se o governo não se preocupa com essas questões e só rouba os impostos por que eu deveria me dar ao esforço? É muito difícil encontrar alternativas e elas são mais caras! E por que só eu devo mudar?"
Na contramão, vejo ressurgirem os artesãos, desprezados após a Revolução Industrial, imbuídos do anseio de se tornarem uma via de escape aos que se cansaram desse cenário. São livres para criar e tem confiança para trazer seu trabalho aos olhos do público, ainda que tenham que lidar com a concorrência desleal da massificação.
Artesãos acreditam fazer a diferença e valorizam o esforço de cada indivíduo que se disponibiliza à mudança. Retomam antigas técnicas, as atualizam, modificam ou até criam novas a partir delas; resgatam o valor das coisas que levam tempo, atenção e empenho para surgirem. Mais que isso, coisas que são feitas com carinho, únicas, perfeitas na sua imperfeição, não saídas de um molde.
É claro: não podem resolver os problemas do mundo, mas não se furtam à tarefa de resolver o que podem, na esfera em que alcançam, através do próprio trabalho.
Andam equilibrando elogios e desprezo, lidam com perguntas de arrepiar os cabelos, como "por que esse preço se o material custa pouco?" ou "você trabalha?" ou com comentários variados, do tipo "deve ser uma terapia", "vou pedir pra minha avó fazer um igual, de presente".
Dou minha mão a esses. Métodos constantemente aprimorados, criatividade alimentada por variadas fontes, possibilidades à frente, seguimos na busca de dar significado a cada peça que sai de nossas mãos, esperando que sejam únicas na vida de pessoas únicas. Que não sejam uma imposição, mas despertem as emoções, traduzam experiências e levem consigo a capacidade de encantamento e da importância de se saber que mais que um produto, foram concebidas como um presente e feitas com intenção.



*Texto escrito para o blog do Compro de Quem Faz
 Imagem: Canva por ScolAstika'S


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